A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO E O RETORNO DE MARIA MADALENA

“Ora, havendo Jesus ressurgido cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios.”  Evangelho de São Marcos, C.16, v.9

O Retorno de Maria Madalena: Madalena como um novo modelo para a mulher independente e apaixonada.

O Código Da Vinci, de Dan Brown, logrou níveis crescentes de sucesso internacional e impressionante audiência, com sua história brilhantemente tecida em torno de sociedades secretas, simbolismo esotérico e lendas do Santo Graal. Na base, a noção, antes herética, de que Maria Madalena fora consorte e parceira sexual de Jesus, e de que sua descendência se tornara uma linhagem sanguínea secreta estendendo-se da Idade Média aos tempos modernos. Embora a maior parte das polêmicas idéias históricas sobre a relação de Jesus com Maria Madalena e sobre o Sangreal como um código para a linhagem sangüínea sagrada .

A Heroína Celebrada

Uma das razões para a popularidade de Madalena é que atitudes feministas não estão mais restritas a intelectuais da Igreja, mas alcançam também as mulheres comuns – e não poucos homens. Assim, milhões de mulheres passaram a questionar a misoginia e o puritanismo de uma Igreja patriarcal que, há muito, tem marginalizado Madalena ou a transformado em bode expiatório, em função de sua flagrante sexualidade. De objeto de pia piedade, Madalena tem se transformado numa heroína feminista celebrada, um novo modelo para a mulher independente e apaixonada. Na verdade, as perspectivas históricas estão sendo revistas, pois como escreve Esther de Boer: “Descobrimos que, no curso da história, Maria Madalena sempre desfrutou de grande popularidade, mas o interesse estava muito mais em sua sexualidade do que em seus testemunhos…Ela atravessou a história, acima de tudo, como uma mulher atraente e muito pecadora, que, graças a Jesus, foi convertida e arrependeu-se”. Embora historiadores modernos da Igreja encarem o rótulo de “prostituta arrependida” como uma tática difamatória e uma interpretação distorcida dos Evangelhos, eles reconhecem o poder de suas imagens na base da consciência cristã.

A Dissociação Madona/Prostituta:

No entanto, para os puritanos e patriarcas que dominaram o Cristianismo, essa “mulher escarlate”, que esteve tão perto do Salvador, é sempre motivo de vergonha e constrangimento. Resta ainda o fato de que os Padres da Igreja Cristã antiga ficavam profunda e patologicamente perturbados pela sexualidade das mulheres. Para eles, sexo era o mais aterrador dos pecados, resultante direto da transgressão de Eva no Jardim do Éden. Justamente a partir dessa paranóia em relação à carne, surgiu o mito doutrinário de Maria a Mãe milagrosamente casta e virgem. Pelo poder do Nascimento Virginal e de uma Igreja de sacerdotes celibatários e freiras virgens, esperavam reverter o pecado original de Eva e fugir das tentações do Demônio no mundo altamente licencioso da Roma Antiga.

O resultado tem sido uma renitente ambivalência em relação a todo feminino conectado com a fé Cristã, uma obsessão com a transgressão sexual e uma misoginia nas Igrejas, as quais não se cansam de denegrir, diminuir e desempoderar as mulheres. O medo que os Padres sentiam das mulheres deixou uma profunda ferida arquetípica – o clichê madona x prostituta – que ainda hoje assombra a psique ocidental. Apesar da influência iluminadora de Freud e Kinsey, da liberação sexual e da ordenação de mulheres, essa ferida está longe de ser curada.

Para um observador de padrões da história religiosa, a re-emergência e popularidade da figura de Madalena, com certeza, representa pelo menos uma compensação saudável para a condição atual da Igreja Católica e sua atitude medieval em relação ao sexo e às mulheres.

O Surgimento do Feminino Divino

Como uma reação a tudo isso, há por toda parte uma enorme ânsia pelo feminino divino, agora invadindo a sociedade ocidental e em vias de varrer de vez e para sempre os fundamentos patriarcais patológicos da Igreja Cristã. Mulheres de todo o mundo, com justeza, anseiam por lhes ver conferida sua verdadeira dignidade como seres apaixonados e criativos, iguais aos homens e não submetidas a eles. E a imagem, que como Afrodite surge da espuma do mar, não é outra senão aquela de Maria Madalena, a Deusa perdida do Cristianismo em suas diversas formas.

“Assim, como uma reação à decadência sexual e estreiteza espiritual de tantas igrejas Cristãs, é para Maria Madalena, até então tão marginalizada e mal-representada na história da Igreja, que muitos estão se voltando, imaginação despertada por uma história de suspense e conspiração. Graças a muitas informações genuinamente ilustradas que Dan Brown coletou (ao lado de outras provenientes de pura e algumas vezes ultrajante especulação), a figura poderosa dessa mulher provocante está outra vez tornando-se viva na imaginação do nosso tempo.

Os textos Gnósticos recentemente descobertos The Nag Hammadi Library (A Biblioteca de Nag Hammadi) deixam mais claro do que nunca que Maria Madalena deve ter tido um papel proeminente, no círculo dos primeiros apóstolos, como a principal confidente de Jesus, chamada de seu koinomos, palavra grega que tecnicamente significa ‘consorte’ ou ‘companheira’, sugerindo uma relação sexual. E, da mesma forma que no rejeitado texto Gnóstico Pistis Sophia, ela se destaca como a principal intérprete da revelação de Jesus do cosmos da luz, ‘aquela que entendeu o Todo’. Aqui, como em outros casos, na figura de Santa Sofia – o feminino transcendente de muitos sistemas Gnósticos – ela repercute o papel sagrado da Sabedoria no Velho Testamento.

Os Evangelhos gnósticos rapidamente excluídos como heréticos pelos Padres da Igreja, em favor de um cânon que maximizasse o status da Virgem Maria (apesar do fato de que ela raramente seja mencionada nos quatro Evangelhos) e minimizasse o papel de Madalena, principal testemunha da Ressurreição, e também o papel da mulher em geral na Igreja. Como nos lembra Susan Haskins em sua investigação admiravelmente ampla sobre as imagens mutáveis de Maria Madalena ao longo dos séculos, a pecha ‘prostituta penitente’ provém de uma confusão na identidade de Madalena, aquela que Jesus exorciza dos sete demônios, com uma mulher sem nome, a pecadora que unta os pés de Jesus com óleo de uma jarra de alabastro (nunca nos foi dito qual era o seu ‘pecado’; como era de se esperar, os Padres supuseram que fosse sexual).

Ao tornar Madalena, uma mulher tão intima de Jesus, na pecadora preeminente, os Padres acabaram por estigmatizá-la, chamando-a, por associação, de Segunda Eva, ‘o portal do Demônio’ (Tertualiano). Os Padres da Igreja que criaram essa imagem composta difamatória foram os mesmos que insistiram renitentemente no celibato dos sacerdotes (para proteger os sacramentos da contaminação de mulheres em período de menstruação).

Hoje podemos ver como, ao excluir as mulheres, antigos fanáticos como Orígenes, Agostinho, João Crisóstomos e Jerônimo, em seu pavor da sexualidade, criaram uma cisão psíquica infeliz na alma ocidental. Em um estudo sobre o arquétipo da Afrodite ferida, no livro The Goddess Within (A Deusa Interior), eu comentei ‘Ao longo dos séculos, uma série lúgubre de equacionamentos foi-se estabelecendo na mente dos Cristãos: Mulher = Terra = Sujeira = Sexo = Pecado. A queda do homem deveu-se a Eva, e a Igreja nunca deixou de advertir os homens de que é a mulher que irá levá-los ao inferno…’ (p. 125, versão em português).

Assim como ocorre em relação a sua permanência na França, existem especulações fascinantes de que a Madalena teria sido uma iniciada em um dos antigos cultos da Deusa, possivelmente aquele da Ísis egípcia. Quando Jesus exorciza os sete demônios da Madalena dos Evangelhos, algumas pessoas, como Lynn Picknett, vêem nisso uma referência secreta ao ritual esotérico de purificação dos sete chakras do corpo energético. Pode também ser uma referência aos ‘Sete Portais’ da descida de Innana, do mito sumério, ao mundo subterrâneo.

O Despertar para a Deusa

Eu acredito que o encanto que Maria Madalena provoca em tantos de nós hoje se deve ao fato de que ela é uma figura complexa e plenamente humana, uma mulher do mundo que viveu uma vida de ‘pecadora’, desfrutou dos prazeres da riqueza e do sexo principalmente, e teve uma relação com o homem mais fascinante da literatura religiosa ocidental. Se é ou não possível para nós conhecermos com precisão histórica os pormenores de sua vida mais do que conhecemos os detalhes da vida de Jesus é, no fim, irrelevante; são as fantasias sobre Maria Madalena e sua relação com Jesus que produzem profunda impressão na consciência moderna, especialmente na das mulheres.

Muitas mulheres hoje, desiludidas e insatisfeitas com as Igrejas, podem começar a admitir para si próprias que, tanto espiritualmente quanto eroticamente, anseiam por mais que a pureza da Virgem e a via crucis, apesar dos séculos de propaganda nesse sentido, principalmente por parte de teólogos do sexo masculino. Trazer a figura de Maria Madalena para a vanguarda do debate público permite que mulheres de toda parte – e não poucos homens – sintam-se habilitados a questionar sua fé sem medo do ridículo ou da vergonha. Isso porque as mulheres, além de desejarem ardentemente uma figura de carne e osso no cerne de sua fé, elas também anseiam por um Jesus de carne e osso que seja plenamente capaz de relacionar-se com sensibilidade e paixão sexual. Um Jesus que seja capaz não apenas de amaldiçoar os vendilhões, passear pelas ruas empoeiradas da Galiléia ou ser visto em bares cercado das prostitutas locais, mas um Jesus que tenha uma amiga e parceira. E que parceira! Digna, forte e orgulhosa; bonita, apaixonada e sábia. A própria personificação de Sofia, o principio divino que transcende até mesmo o Logos de seu Mestre e consorte. Quando, mais tarde, ela se apresenta e fala, populações são arrebatadas por suas palavras, como ocorreu em Marselha. Mesmo o mais brilhante dos discípulos do sexo masculino, segundo nos diz o Evangelho de Felipe, silenciam perante sua doutrinação apaixonada. Somente o teimoso e notório tolo  Pedro se ressente e finalmente rejeita o espantoso carisma de Madalena. Milhões de pessoas foram recentemente estimuladas pelas idéias de O Código Da Vinci, uma tendência que promete crescer com a adaptação cinematográfica de Ron Howard. Parece que nós, como cultura, estamos suficientemente maduros neste momento para decifrar esse momentoso enigma da ‘deusa perdida’. O fenômeno do retorno de Madalena deve ser visto como o despertar profundo na moderna consciência da idéia de que Deus e sua encarnação humana e filho, Jesus, não pode mais ser separado de sua contraparte e parceira feminina. Deus Pai deve mais uma vez ser igualado à Deusa Mãe; o Filho-amante encarnado deve de novo ser igualado à Filha-amante encarnada. Depois de ser suprimida, denegrida e perseguida por dois mil anos, a Grande Deusa finalmente retorna em toda sua beleza, sabedoria e glória – como Madalena – e eu gosto de pensar que em suas mãos ela carrega o Graal, que nos pode curar a todos.

Roger Woolger, Ph.D., terapeuta Junguiano e professor, criou a Terapia chamada Deep Memory Process (Processo de Memória Profunda).

 

2 Respostas para “A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO E O RETORNO DE MARIA MADALENA

  1. Parabéns por esse texto. Muito bom.
    Acredito no retorno de Madalena…e testemunho a confusão em torno de sua personalidade, até mesmo por nós, mulheres.
    Não devíamos permitir que houvesse retrocessos quanto a isso, assim como não há retrocesso na caminhada das mulheres rumo à superação da misoginia.

  2. Muito verdadeiro e bem escrito…A síntese que todos precisam conhecer… dita de uma forma clara e precisa… Parabéns…ALICE BARUCH.

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