SABER CUIDAR

Leonardo Boff (1999), em seu livro “Saber Cuidar”, apresenta uma fábula-mito que expõe o Cuidado como essência do ser humano:

 “Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada. Tomou um pouco de barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo por ocasião da morte da criatura. Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: essa criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.

O Cuidado é compreendido como fenômeno constitutivo da existência humana. Segundo May (1973, p.321) “quando não cuidamos perdemos nosso ser; cuidar-se é voltar a ser. Se me preocupo com o ser, cuidarei com atenção do seu bem-estar, caso contrário, meu ser se desintegrará”. Se observarmos nossa vida veremos que bem antes de nascermos o Cuidado já estava presente. O bebê está sujeito a diferentes vivências dentro do útero da mãe e somente em função dos cuidados maternos ele pode desenvolver-se até o nascimento biológico. De acordo com Bassoli Jr. (2001) apesar da separação do nascimento, o bebê continua dependente da mãe nos planos físico, afetivo e existencial, ou seja, o nascimento psicológico não acompanha o biológico.

Somos seres que necessitam de cuidados constantes para que possamos crescer e, paulatinamente, alcançarmos a autonomia, na qual também passamos a cuidar e renovamos o ciclo do cuidado. O cuidar do outro é “(…) um estado composto do reconhecimento de outrem, um ser humano igual a mim; da identificação de mim mesmo com a dor e a alegria de outrem; do remorso, da pena e do conhecimento de nos originarmos de uma humanidade comum a todos” (May, 1973, p. 320).

O resgate de nosso modo-de-ser-cuidado é o resgate daquilo que é mais essencial à humanidade. É a tentativa de ouvir e fazer emergir nosso princípio feminino (anima) que envolve o sentir, o amar e conciliá-lo com nosso princípio masculino (animus), racional.

Em princípio, a escolha de tornar-se um psicoterapeuta é uma escolha de lidar com o sofrimento e também com as mudanças, as transformações e retrocessos, do desempenho do modo–de–ser–cuidado. Tal escolha supõe, como na prática religiosa, em sair de si mesmo para ir ao encontro do Outro, a fim de auxiliá-lo. E neste encontro, terapeuta e cliente saem mutuamente afetados, positiva ou negativamente.

Sobre o terapeuta, Leloup (1999, p 25) afirma: “O terapeuta é um ser que sabe orar pela saúde do outro, isto é, chamar sobre ele a presença e a energia do Vivente, pois só ele pode curar toda doença e com o qual ele coopera. O terapeuta não cura, ele cuida, é o Vivente que trata e que cura. O terapeuta está lá apenas para por o doente nas melhores condições possíveis para que o Vivente atue e venha a cura”.

 Dentro da perspectiva junguiana, podemos chamar de Self o que Leloup (1999) atribuiu o nome de “Vivente”. Cabe ao terapeuta auxiliar o paciente em seu contato com essa dimensão de seu psiquismo. No setting psicoterapêutico, o cliente pode aprender como se auto cuidar. No início, o terapeuta atua como um “ego auxiliar” e aos poucos, o paciente aprende a seguir sozinho.

Para Holanda (1998, p. 98),  a prática da psicoterapia implica numa “extrema sensibilidade momento a momento, até os significados sentidos e mutáveis que fluem na outra pessoa. Em um sentido poético, é habitar temporariamente a vida do outro delicadamente, sem causar-lhe prejuízos”.

Trechos do texto “Individuação e as Dimensões do Cuidado Arquetípico: Interfaces entre Jung e a Tradição Budista”, de Ricardo Franco de Lima.

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